
Por mais que esteja baseado em congêneres estrangeiros, "Sábado Alucinante" (1979), quinto filme dirigido por Cláudio Cunha, merece uma releitura além do pastiche. Gastando os estertores da onda disco, suburbanizando o que no mundo já virara bad trip de pó e narcisismo, Cunha aplicou o contexto em terreno fértil, que dominava bem: a observação de costumes, crônica metódica de pequenos personagens.
Se em Profissão Mulher (1982) suas criaturas trabalhavam em uma agência de propaganda, em 1979 bateram ponto na New York Disco Laser. Boate da moda -- situada à Rua Visconde de Pirajá 22, Ipanema, Rio de Janeiro -- vida real fundiu-se com ficção, e aqueles poderiam ser qualquer um de nós. A moça grávida (Simone Carvalho); o garanhão inconsequente (Marcelo Picchi); a dondoca (Heloisa Raso) apaixonada platonicamente pelo pai (Rogério Fróes) -- uma galeria de histórias com pano de fundo da discoteca.
Ouvindo o fino das paradas 77-78 no país, examinamos por dentro a aparência de uma autêntica boate setentista. Dois adolescentes curiosos traçam o aspecto lúdico deste passeio do espectador; querem penetrar na festa a todo custo, impedidos pelo porteiro (Canarinho). Bem-vinda somente a pantera Laura (Sandra Bréa), esfuziante na pista, para quem o discotecário dedica esforços pirotécnicos, imaginando a diva nua entre um chiquê sonoro e outro.
La Bréa, quase um travesti, rivaliza com Bebeto (Marcelo Picchi) as atenções da platéia masculina e feminina. Bebeto ensaia flerte com Laura, mas ela ama um certo Rogério, para quem liga durante as madrugadas, depois da farra, ameaçando se matar. E Bebeto vive a expectativa de ser pai do filho de Gina, cuja gravidez é motivo de especulações da turma, ao nascer do sol no Arpoador.
Cláudio Cunha costumava escrever roteiros em parcerias nobres, como a escritora Márcia Denser e o novelista Benedito Ruy Barbosa. Manifestava, assim, preocupação de filtrar o apelo popular -- de diálogos superficiais e dramas ligeiros -- com uma veia consistente. O interesse dos seus filmes sobreviveu neste equilíbrio entre o aspecto camp e a tentativa sincera de fazer bom cinema para as massas.
Muitas vezes, acertava: Afonso (Rodolfo Arena), garçom da New York, é figura notável. Conhecido pela alcunha de Lesma, velho, doente, açoitado pelo patrão capitalista e pelo baticum imperialista, Lesma planeja um falso sequestro, que esbarra na sua absoluta incapacidade e covardia. Demitido ao som de I Will Survive, Rodolfo Arena como garçom -- e problema social -- de certa forma ironizava o caos dos serviços prestados no Brasil, onde a fronteira entre profissionalismo, informalidade e paternalismo ainda é muito tênue.
Já quando erravam a mão, os filmes guardam indefectível aparência de novela mal-feita. Em "Sábado Alucinante", a pra frentex Baby (Djenane Machado) seduz o escritor gente-bem Werneck (Rogério Fróes), com ar de lolita e seios à mostra -- o que enlouquece Joana (Heloisa Raso), filha de Werneck, patrulheira edípica das aventuras amorosas do pai. Na estrutura típica de folhetim soma-se interpretação de Fróes, ar de "homem contido", contrapondo Djenane -- filha do rei da noite, Carlos Machado -- clichê de menininha espevitada.
Entre o ridículo e o sublime, uma coisa o artista Cláudio Cunha não pode negar: apaixonado pelo Rio de Janeiro e pela dinâmica da vida balneária, sua vontade de realizador carioca sempre traía as origens paulistanas. Soube operar esta circunstância com naturalidade, o que lhe garantia posição privilegiada: acesso ao rico circuito exibidor de São Paulo e intimidades no meio cultural de ambos lados da ponte aérea. No final dos anos 70 obtinha sólido êxito em todo país e na América do Sul. Não raro, os jornais argentinos -- Clarín, La Nacion -- analisavam e divulgavam seus filmes com muito mais interesse que a preguiçosa e preconceituosa crítica nacional.
Mestre em explorar o inconsciente coletivo caipira sobre o Rio -- explicitado em "Amada Amante", diluído em "Profissão Mulher" -- na disco-music fez ode ipanemense ao "dançar até o sol raiar". Os garotos que desejavam penetrar na festa talvez fossem Cunha; o mesmo para Maurício do Valle, no papel de Ivan. Antes inocência que arrivismo, "Sábado Alucinante" copiava, sim, "Saturday Night Fever" e "Thank God It's Friday". Só que vistos pelos barrados na porta da 2001 ou do Studio 54. Diversão brasileira, a experiência glamourosa dos vencedores sob a ótica antropofágica do excluído.
Se em Profissão Mulher (1982) suas criaturas trabalhavam em uma agência de propaganda, em 1979 bateram ponto na New York Disco Laser. Boate da moda -- situada à Rua Visconde de Pirajá 22, Ipanema, Rio de Janeiro -- vida real fundiu-se com ficção, e aqueles poderiam ser qualquer um de nós. A moça grávida (Simone Carvalho); o garanhão inconsequente (Marcelo Picchi); a dondoca (Heloisa Raso) apaixonada platonicamente pelo pai (Rogério Fróes) -- uma galeria de histórias com pano de fundo da discoteca.
Ouvindo o fino das paradas 77-78 no país, examinamos por dentro a aparência de uma autêntica boate setentista. Dois adolescentes curiosos traçam o aspecto lúdico deste passeio do espectador; querem penetrar na festa a todo custo, impedidos pelo porteiro (Canarinho). Bem-vinda somente a pantera Laura (Sandra Bréa), esfuziante na pista, para quem o discotecário dedica esforços pirotécnicos, imaginando a diva nua entre um chiquê sonoro e outro.
La Bréa, quase um travesti, rivaliza com Bebeto (Marcelo Picchi) as atenções da platéia masculina e feminina. Bebeto ensaia flerte com Laura, mas ela ama um certo Rogério, para quem liga durante as madrugadas, depois da farra, ameaçando se matar. E Bebeto vive a expectativa de ser pai do filho de Gina, cuja gravidez é motivo de especulações da turma, ao nascer do sol no Arpoador.
Cláudio Cunha costumava escrever roteiros em parcerias nobres, como a escritora Márcia Denser e o novelista Benedito Ruy Barbosa. Manifestava, assim, preocupação de filtrar o apelo popular -- de diálogos superficiais e dramas ligeiros -- com uma veia consistente. O interesse dos seus filmes sobreviveu neste equilíbrio entre o aspecto camp e a tentativa sincera de fazer bom cinema para as massas.
Muitas vezes, acertava: Afonso (Rodolfo Arena), garçom da New York, é figura notável. Conhecido pela alcunha de Lesma, velho, doente, açoitado pelo patrão capitalista e pelo baticum imperialista, Lesma planeja um falso sequestro, que esbarra na sua absoluta incapacidade e covardia. Demitido ao som de I Will Survive, Rodolfo Arena como garçom -- e problema social -- de certa forma ironizava o caos dos serviços prestados no Brasil, onde a fronteira entre profissionalismo, informalidade e paternalismo ainda é muito tênue.
Já quando erravam a mão, os filmes guardam indefectível aparência de novela mal-feita. Em "Sábado Alucinante", a pra frentex Baby (Djenane Machado) seduz o escritor gente-bem Werneck (Rogério Fróes), com ar de lolita e seios à mostra -- o que enlouquece Joana (Heloisa Raso), filha de Werneck, patrulheira edípica das aventuras amorosas do pai. Na estrutura típica de folhetim soma-se interpretação de Fróes, ar de "homem contido", contrapondo Djenane -- filha do rei da noite, Carlos Machado -- clichê de menininha espevitada.
Entre o ridículo e o sublime, uma coisa o artista Cláudio Cunha não pode negar: apaixonado pelo Rio de Janeiro e pela dinâmica da vida balneária, sua vontade de realizador carioca sempre traía as origens paulistanas. Soube operar esta circunstância com naturalidade, o que lhe garantia posição privilegiada: acesso ao rico circuito exibidor de São Paulo e intimidades no meio cultural de ambos lados da ponte aérea. No final dos anos 70 obtinha sólido êxito em todo país e na América do Sul. Não raro, os jornais argentinos -- Clarín, La Nacion -- analisavam e divulgavam seus filmes com muito mais interesse que a preguiçosa e preconceituosa crítica nacional.
Mestre em explorar o inconsciente coletivo caipira sobre o Rio -- explicitado em "Amada Amante", diluído em "Profissão Mulher" -- na disco-music fez ode ipanemense ao "dançar até o sol raiar". Os garotos que desejavam penetrar na festa talvez fossem Cunha; o mesmo para Maurício do Valle, no papel de Ivan. Antes inocência que arrivismo, "Sábado Alucinante" copiava, sim, "Saturday Night Fever" e "Thank God It's Friday". Só que vistos pelos barrados na porta da 2001 ou do Studio 54. Diversão brasileira, a experiência glamourosa dos vencedores sob a ótica antropofágica do excluído.


